A nomeação de Gabriel Galípolo, economista de confiança da Presidência, para a diretoria do Banco Central (BC) parecia sinalizar um alinhamento da política monetária com os objetivos declarados do governo de retomar o crescimento, gerar empregos e promover a redistribuição de renda. No entanto, a persistência de uma taxa Selic em patamares elevados tem gerado uma contradição que transcende a esfera técnica, transformando-se em um dos maiores riscos políticos para o governo com a proximidade do ciclo eleitoral de 2026. A manutenção de juros altos, mesmo sob um comando teoricamente afinado, não é apenas um paradoxo econômico; representa uma ameaça política cujos reflexos podem ser decisivos na próxima disputa presidencial.
O paradoxo da política monetária sob nova gestão
A expectativa gerada pela chegada de Gabriel Galípolo ao Banco Central, visto como um “menino de ouro” pelo presidente, era de que a política monetária finalmente se curvaria aos anseios de estímulo à economia real. Contudo, o que se observa é a manutenção de uma taxa Selic em níveis considerados restritivos, desestimulando o investimento produtivo e freando a atividade econômica. Este cenário desarticula o discurso político que, por anos, atribuía o custo proibitivo do crédito à existência de uma instituição autônoma e hostil aos projetos governamentais. Agora, com a maioria dos membros do Comitê de Política Monetária (Copom) nomeados pela atual gestão, a ortodoxia monetária passa a vestir as cores do próprio governo.
A contradição entre discurso e realidade econômica
Sob a gestão de quadros nomeados pela atual administração, o Banco Central opera sob a lógica técnica do Copom, priorizando supostamente a ancoragem das expectativas inflacionárias e a estabilidade financeira. Essa abordagem, embora tecnicamente justificável em certos contextos, ocorre ao custo de estrangular o crédito, desestimular novos investimentos e frear o dinamismo econômico no curto e médio prazos. Para o setor produtivo — desde grandes indústrias até pequenos comerciantes —, a mensagem é clara e desafiadora: pouquíssimas atividades lícitas conseguem garantir, de forma segura, um retorno que cubra um custo de capital tão elevado. O resultado é a migração de recursos para a rentabilidade segura dos títulos públicos e aplicações financeiras, em um processo conhecido como “financeirização” que, na prática, esvazia a economia real e contraria as bandeiras centrais de desenvolvimento e emprego defendidas pelo governo.
O ciclo econômico e o calendário eleitoral de 2026
O perigo iminente não reside apenas na contradição retórica, mas no descompasso entre o ciclo monetário e o ciclo político. Os efeitos recessivos de uma política de juros altos não são imediatos; eles se propagam pela economia com um atraso considerável, geralmente estimado entre seis e dezoito meses. Demissões em cadeia no setor privado, aumento da inadimplência de famílias e empresas, cancelamento de projetos de expansão e um clima generalizado de pessimismo são consequências que, uma vez deflagradas, demoram a ser revertidas.
A tempestade perfeita para as eleições
Se o Banco Central mantiver seu compasso de espera e iniciar um ciclo de cortes de juros apenas de forma tímida ou tardia, por exemplo, a partir de março ou abril de 2026, os piores efeitos recessivos atingirão seu ápice justamente no segundo e terceiro trimestres de 2026. Este período crítico coincide diretamente com o coração da campanha eleitoral presidencial. Será durante os comícios, os debates televisivos e a definição do voto do eleitor indeciso que a economia estará sentindo o baque mais agudo do aperto monetário prolongado. Este timing é eleitoralmente desastroso, pois ligará diretamente a percepção de deterioração econômica à imagem do governo no poder.
Fatores externos e a pressão adicional
Para agravar este cenário, fatores externos convergem para amplificar o impacto negativo. Estimativas do IBGE apontam para uma safra agrícola em 2026 pelo menos 3% menor do que a de 2025, devido a condições climáticas adversas. Essa queda atuará como um choque adverso de oferta, pressionando os preços dos alimentos no mercado interno e complicando a trajetória da inflação. Adicionalmente, a redução das exportações do agronegócio afetará negativamente a balança comercial. A combinação de estagnação produtiva, provocada pelos juros altos, com uma pressão inflacionária pontual, decorrente da menor safra, criará um cenário econômico complexo e de difícil comunicação. O governo poderá ser acusado simultaneamente de asfixiar a economia e de perder o controle dos preços, impactando negativamente o cálculo do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro semestre de 2026 e elevando o risco de uma recessão técnica às vésperas das eleições.
Implicações políticas e a urgência de uma guinada
Neste contexto, a análise se desloca da esfera puramente econômica para a estratégia política e a gestão de expectativas. Ao colocar um nome de sua inteira confiança à frente do Banco Central e nomear a maioria dos membros do Copom, o governo assumiu a propriedade total da política monetária. O “risco Galípolo” transformou-se, assim, no “risco Lula”. A “festa” do crescimento e da distribuição de renda, prometida e esperada pela base eleitoral, corre o risco de ser frustrada não por um opositor externo, mas por uma decisão interna percebida como subordinada aos interesses do mercado financeiro, a “Faria Lima”.
O “risco Galípolo” torna-se “risco Lula”
Essa percepção é politicamente tóxica. Ela alimenta a narrativa oposicionista de que o governo é incoerente, que fala ao povo nas praças mas governa para o mercado nos gabinetes, sacrificando o trabalhador e o empresário nacional no altar dos ganhos do sistema financeiro. A imagem de Gabriel Galípolo, o “menino de ouro”, como um “agente duplo” técnico e insensível ao desemprego, torna-se um presente para os adversários políticos. A insistência do Banco Central no discurso do mercado de trabalho resiliente como justificativa para a manutenção da Selic alta reforça a ideia, entre o setor produtivo, de uma influência anormal de parte do mercado financeiro sobre as decisões do BC, que parece desconhecer o funcionamento da economia real. No Brasil, empresas postergam ao máximo a dispensa de mão de obra devido ao seu alto custo legal, esperando sinais de reversão da política monetária.
A janela de oportunidade para a ação
A resposta a este cenário não pode ser apenas técnica; deve ser política e estrategicamente antecipatória. O governo não pode mais se dar ao luxo de encarar a política monetária como uma ilha isolada de tecnicismo. Ela se tornou, inevitavelmente, o epicentro do debate político-eleitoral que se avizinha. Para desarmar a bomba-relógio, é imperativo que o Banco Central, sob a liderança de Galípolo, execute uma guinada clara e vigorosa. É necessária uma redução de juros rápida, abrangente e sinalizada com antecedência, iniciada o mais cedo possível e com meta explícita de aliviar significativamente o custo do crédito até o final do primeiro trimestre de 2026. Essa medida não pode ser tímida ou gotejada. Deve ser um movimento estratégico, acompanhado de uma comunicação eficaz que vincule explicitamente a queda dos juros à retomada dos investimentos, à geração de empregos e à proteção da renda das famílias. O governo precisa criar um ambiente de expectativas positivas que antecipe os efeitos benéficos da flexibilização monetária, ou o projeto de reeleição poderá naufragar. Empresários precisam sentir confiança para retomar planos de investimento ainda no primeiro semestre de 2026, acreditando que o ciclo de custo mais baixo será duradouro. O mercado de trabalho precisa receber sinais de que a demanda se manterá aquecida. Esse “espírito animal” da economia, se bem conduzido, pode começar a produzir indicadores positivos — ou, ao menos, a interromper a deterioração — justamente no período crítico da pré-campanha. Sem essa ação corretiva de rumo, o governo caminha para ser derrotado nas urnas não por uma oposição forte, mas por sua própria incapacidade de harmonizar seus instrumentos de política econômica.
Perguntas frequentes
Por que a taxa Selic alta é um risco político para o governo?
A manutenção de juros elevados, mesmo com o Banco Central sob nova gestão, contradiz as promessas de crescimento e emprego do governo. Se os efeitos recessivos se intensificarem próximo às eleições de 2026, o governo poderá ser responsabilizado diretamente pela desaceleração econômica e pelo desemprego.
Qual o papel de Gabriel Galípolo neste cenário?
Como presidente do Banco Central indicado pelo atual governo, Galípolo é visto como um elo entre o Planalto e a política monetária. A continuidade da Selic alta sob sua gestão retira do governo a capacidade de atribuir a culpa a um “adversário” e o torna o “dono” da política de juros, assumindo o ônus político.
Como os fatores externos, como a safra agrícola, podem influenciar?
Uma safra agrícola menor em 2026 pode gerar pressão inflacionária nos alimentos e reduzir as exportações, impactando negativamente o PIB e a balança comercial. Combinado com os juros altos, isso cria um cenário de estagnação com inflação, dificultando a recuperação econômica e a comunicação governamental.
Acompanhe de perto as próximas decisões do Banco Central e seus impactos na economia e no cenário político. A harmonização da política monetária com os objetivos de desenvolvimento é crucial para o futuro do país e para a própria credibilidade governamental.