Em um avanço significativo para os direitos trabalhistas no Brasil, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal aprovou nesta quarta-feira (2) a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 221/2019, que visa pôr fim à escala de trabalho 6×1. A decisão, resultado de uma intensa mobilização de centrais sindicais e movimentos sociais, prevê a instituição de dois dias de descanso semanais, com um preferencialmente aos domingos, e a redução gradual da jornada de trabalho para 40 horas semanais, sem qualquer prejuízo salarial. Este marco representa uma vitória para milhões de trabalhadores que buscam melhor qualidade de vida e equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
A aprovação na CCJ, um dos mais importantes colegiados do Senado, marca um passo crucial na tramitação da matéria, que agora segue para a análise do plenário. A expectativa é que a proposta, que já havia passado pela Câmara Federal em maio, traga um impacto positivo direto na rotina de inúmeros profissionais, garantindo mais tempo para lazer, família e recuperação física e mental.
Aprovação Decisiva na CCJ e a Articulação Política
Após um debate que se estendeu por quase sete horas, a proposta recebeu ampla aprovação na Comissão de Constituição e Justiça, com apenas quatro votos contrários. Os senadores Rogério Marinho (PL-RN), Hamilton Mourão (Republicanos-RS), Teresa Cristina (PP-MS) e Jaime Bagattoli (PL-RO) manifestaram-se contra o relatório, enquanto a maioria esmagadora dos membros da comissão votou a favor do texto. O relator, senador Omar Aziz (PSD-AM), foi fundamental ao manter o texto original aprovado pela Câmara Federal, evitando que a PEC precisasse retornar para nova deliberação dos deputados, agilizando assim o processo.
A luta pela aprovação da PEC foi encabeçada por diversas entidades, incluindo a Fetram-MA, a CUT e outras centrais sindicais, que trabalharam ativamente na conscientização e articulação política para garantir este resultado favorável. A unanimidade no pedido dos senadores da CCJ para que a matéria fosse votada em plenário ainda no mesmo dia demonstrou a urgência e o consenso em torno da pauta, refletindo a pressão da sociedade por essa mudança.
Próximos Passos: A Votação no Plenário do Senado
Com a aprovação na CCJ, a PEC do fim da escala 6×1 avança para a etapa final de sua tramitação no Senado Federal: a votação em plenário. Para ser definitivamente aprovada e seguir para promulgação, a proposta necessita do apoio de no mínimo 49 dos 81 senadores que compõem a Casa. A definição da data para essa votação depende da decisão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que terá a prerrogativa de pautar o projeto.
As centrais sindicais, como a CUT, defendem que a votação em plenário ocorra com a máxima celeridade, idealmente até a próxima sexta-feira (4). Essa urgência se justifica pelo prazo estabelecido pelos presidentes do Senado e da Câmara para concentrar as votações no Congresso Nacional nos 30 dias que antecedem o primeiro turno das próximas eleições, agendado para 4 de outubro. A janela antes do período eleitoral é considerada estratégica para garantir a análise e aprovação de pautas importantes para a sociedade.
Detalhes da Proposta Aprovada: Novas Regras para a Jornada de Trabalho
A proposta aprovada na CCJ é o resultado da união de duas PECs anteriormente em tramitação: a PEC 221/19, de autoria do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que inicialmente propunha uma jornada de 36 horas semanais, e a PEC 8/25, da deputada Érika Hilton (PSOL-SP), que defendia uma jornada de quatro dias de trabalho. O texto consolidado estabelece um cronograma de implementação gradual das novas regras.
Após a promulgação da PEC, em até 60 dias, os trabalhadores passarão a cumprir a escala de 5 dias de trabalho por 2 dias de descanso. Além disso, a jornada semanal será reduzida das atuais 44 horas para 42 horas. Em um período máximo de 14 meses após esta primeira etapa, a jornada será novamente diminuída, passando de 42 para 40 horas semanais, mantendo-se a escala 5×2, com um dos dias de descanso preferencialmente aos domingos. Essa progressão garante uma transição suave para as empresas e trabalhadores.
Exceções e Adaptações no Novo Regime de Jornada
O texto aprovado também contempla situações específicas e estabelece exceções às novas regras, visando equilibrar a flexibilização com a proteção trabalhista. Profissionais com diploma de nível superior e remuneração mensal superior a R$ 21,1 mil não serão submetidos automaticamente às novas regras de jornada e controle de ponto. Segundo o relatório, essa medida busca coibir a chamada 'pejotização' e proporcionar maior flexibilidade para trabalhadores de alta renda, onde a redução da jornada poderá ser negociada diretamente com o empregador ou prevista em acordos e convenções coletivas de trabalho.
Contudo, é importante ressaltar que essa exceção não se aplica aos servidores e empregados públicos da administração direta e indireta em todas as esferas (União, estados, Distrito Federal e municípios), que seguirão as novas diretrizes. Para os contratos firmados pelo poder público com empresas terceirizadas, os trabalhadores serão incluídos na nova jornada a partir da formalização de aditivos contratuais ou após um prazo máximo de 12 meses, previsto para a necessária adaptação dos termos.
Mobilização Nacional Pela Votação Urgente
A aprovação na CCJ intensificou a mobilização das entidades representativas dos trabalhadores, que agora concentram esforços para garantir uma votação rápida e positiva no plenário do Senado. Desde terça-feira (1º) e estendendo-se até quinta-feira (3), a CUT-DF organizou vigílias em frente ao Anexo II do Senado Federal, com a participação de representantes sindicais e trabalhadores de diversas categorias, para pressionar os senadores.
Além das ações presenciais, a campanha pela redução da jornada e o fim da escala 6×1 também se expandiu para o ambiente digital. Uma plataforma online, acessível em 'napressao.org.br' e também através do Portal da CUT, permite que qualquer cidadão envie mensagens diretamente aos senadores. A ferramenta lista o posicionamento dos parlamentares por estado, partido ou nome, facilitando o contato e a manifestação de apoio à PEC. A agitação nas redes sociais e a distribuição de materiais informativos da campanha continuam ativas, reforçando a pressão popular por esta importante mudança na legislação trabalhista.
A Tentativa de Obstrução da Votação
Durante a sessão da CCJ, houve uma tentativa de atrasar a votação por parte do senador Rogério Marinho (PL-RN), que solicitou um pedido de vista. Pelo regimento do Senado, o pedido de vista visa conceder mais tempo para os senadores examinarem a matéria, com prazo normal de até cinco dias, podendo ser reduzido para 24 horas em regime de urgência. Embora o presidente da CCJ, senador Otto Alencar, tenha concedido o tempo solicitado, a votação da PEC 221/2019 acabou por prosseguir, impedindo que a manobra atrasasse a deliberação naquele momento crucial.
Esta situação ilustra a complexidade do processo legislativo e a importância da articulação política para garantir que propostas de interesse dos trabalhadores não sejam barradas por mecanismos regimentais, reforçando a necessidade da vigilância e pressão contínua por parte da sociedade civil e das entidades sindicais.
Conclusão
A aprovação da PEC do fim da escala 6×1 na CCJ do Senado Federal é, sem dúvida, um marco histórico e uma vitória expressiva para os trabalhadores brasileiros e os movimentos que há anos lutam por condições laborais mais justas e humanas. Ao garantir mais descanso, reduzir a jornada sem impactar o salário e promover um maior equilíbrio entre vida pessoal e profissional, a proposta visa elevar a qualidade de vida de milhões de pessoas.
No entanto, o caminho para a efetivação dessa conquista ainda exige atenção e mobilização. A votação no plenário do Senado é o próximo e decisivo passo, demandando a continuidade da pressão popular e da articulação política. A concretização desta PEC representará não apenas uma mudança na legislação, mas um avanço social fundamental, reafirmando o compromisso com o bem-estar e a dignidade dos trabalhadores no Brasil.
Fonte: https://fetram.com.br