Com a aproximação do final do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o cenário político brasileiro volta-se para as eleições de 2026. Este debate, contudo, não se restringe a um mero balanço das realizações governamentais. É fundamental ir além do inventário de obras e programas para discernir o verdadeiro significado das escolhas políticas, seus resultados tangíveis e, sobretudo, o que está em jogo para o futuro da nação. A discussão aprofundada exige uma análise comparativa do estado anterior do País, dos esforços de reconstrução empreendidos e dos desafios persistentes, culminando na crucial questão de qual projeto de Estado e sociedade será capaz de consolidar as conquistas e enfrentar os problemas ainda sem solução.
Nesse contexto, a disputa política de 2026 adquire uma dimensão estratégica, polarizada por duas concepções distintas sobre o papel do Estado, a participação social, os direitos fundamentais, o desenvolvimento econômico e a inserção do Brasil no cenário internacional.
Confronto de Visões: O Papel do Estado e da Sociedade
De um lado, observa-se um projeto de reconstrução e ampliação de direitos, com ênfase na participação social ativa e na presença robusta do Estado, características da atual administração. Esta visão defende que o Estado deve ser um indutor de desenvolvimento e garantidor de direitos, promovendo a inclusão e a equidade social. Em contrapartida, persiste uma perspectiva que, especialmente nos anos recentes, preconizou a minimização do papel estatal, a contenção rigorosa do gasto público e a delegação de responsabilidades ao setor privado. A divergência entre essas concepções não é meramente ideológica, traduzindo-se em políticas públicas concretas com impactos distintos na trajetória recente do País.
A Retomada do Diálogo e da Participação Social
Uma das primeiras ações do governo atual foi a restauração e fortalecimento dos canais de participação social, que haviam sido desativados ou enfraquecidos. O Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, conhecido como Conselhão, foi recriado após sua extinção em 2019, reunindo 246 representantes de diversos segmentos. Paralelamente, foram restabelecidos o Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial e instituído o Conselho de Participação Social, ampliando as esferas de diálogo com a sociedade civil e setores produtivos.
Além da estruturação de novos conselhos, o governo promoveu mais de 20 conferências nacionais, como a 17ª Conferência Nacional de Saúde, a 5ª Conferência de Políticas para as Mulheres e a retomada da Conferência Nacional de Direitos LGBTQIA+, interrompida desde 2019. Essas iniciativas foram complementadas pela criação de assessorias especiais de Participação Social e Diversidade nos ministérios, consolidando a participação cidadã como um pilar da governança. Essa abordagem reflete uma mudança fundamental na compreensão da participação social, que deixou de ser vista como um entrave à gestão para se tornar um instrumento vital na formulação e acompanhamento das políticas públicas, gerando resultados como a Política Nacional Integrada da Primeira Infância e o Conselho Consultivo para a Transformação Digital. Embora nem todos os desafios de participação estejam superados, a nova direção é clara: o diálogo com a sociedade foi reinstitucionalizado.
Fortalecimento da Capacidade Estatal para a Governança
Similarmente, houve uma significativa recuperação da capacidade de ação do Estado na administração pública. Após um período marcado pela redução de quadros, fragilização de estruturas e perda de capacidade operacional, o governo investiu na recomposição de equipes e na realização de concursos públicos. Em 2023, foram autorizadas mais de 20 mil vagas, com destaque para 9.066 em concursos efetivos. Em 2024, o Concurso Público Nacional Unificado ofereceu 6.640 vagas imediatas, atraindo mais de 2,1 milhões de inscritos, e uma segunda edição para 2025 abriu outras 3.652 vagas, com previsão de convocar até 21 mil aprovados.
Essa estratégia de fortalecimento também incluiu reajustes salariais, reposição de perdas inflacionárias e o reforço das estruturas de fiscalização, controle e regulação. Como resultado, ao final de 2025, o governo federal contava com o maior contingente de servidores ativos desde 2021, totalizando 579.070. A questão central, portanto, não se limita a ter mais ou menos servidores, mas sim a garantir que o Estado possua capacidade técnica e operacional suficiente para fiscalizar, regular, formular políticas públicas eficazes e prestar serviços essenciais à população, refutando a ideia de que um Estado sem capacidade é, por si só, eficiente.
Brasil Recobra Protagonismo no Cenário Global
No âmbito da política externa, o País experimentou uma notável mudança de rumo. Após um período de menor atuação nos principais fóruns internacionais, o Brasil recuperou sua voz e influência global. Exemplos desse protagonismo incluem a presidência do G20 em 2024 e do Mercosul em 2025, o lançamento da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, a defesa enfática da tributação dos super-ricos e a liderança do BRICS em 2025. O ápice dessa rearticulação internacional será a sediagem da COP30 em Belém (PA), que consolidará o compromisso ambiental do País.
Além de reafirmar sua presença em pautas globais cruciais, a diplomacia brasileira trabalhou para ampliar oportunidades comerciais para produtos nacionais e restabelecer canais de interlocução estratégica em diversas frentes, evidenciando uma política externa ativa e alinhada aos interesses de desenvolvimento e soberania do País.
Em síntese, a eleição de 2026 vai muito além da escolha de um novo presidente; ela representa um referendo sobre qual projeto de Estado e de sociedade o Brasil deseja construir. As iniciativas de reconstrução do diálogo social, o fortalecimento da máquina pública e a retomada do protagonismo internacional demonstram uma clara direção, mas a continuidade ou a reversão desses caminhos dependerá da decisão que o eleitorado tomará. A escolha definirá se o Brasil avançará em um modelo que prioriza a intervenção estatal para a garantia de direitos e o desenvolvimento inclusivo, ou se regressará a uma abordagem que confia primordialmente nas forças de mercado e na retração do setor público. Este é o cerne da encruzilhada brasileira.