Dourados, no Mato Grosso do Sul, enfrenta uma situação de emergência de saúde pública classificada como crítica pelo novo Ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena. A visita do ministro ao município nesta sexta-feira (3) teve como objetivo avaliar de perto o avanço da chikungunya, uma doença que tem impactado severamente a região, com especial preocupação para as comunidades indígenas locais.
Durante sua visita, Terena sublinhou a responsabilidade coletiva diante da crise. “Quando se trata de saúde, de vidas humanas, a responsabilidade é global. Não estamos aqui para dizer que a responsabilidade era do município, do governo estadual ou do governo federal. Estamos aqui para reconhecer esta situação crítica. Portanto, não temos uma posição negacionista e vamos enfrentá-la”, afirmou, indicando um compromisso interfederativo para a superação do problema.
Cenário Epidemiológico Alarmante
O quadro epidemiológico em Dourados e no estado do Mato Grosso do Sul é motivo de grande preocupação. Dados do governo estadual, registrados entre janeiro e o início de abril, indicam 1.764 casos confirmados de chikungunya em todo o estado, dos quais 37 acometeram gestantes, além de 1.893 casos que permanecem sob investigação. Dourados, com 759 registros, concentra o maior número absoluto de casos prováveis da doença, refletindo a intensidade da transmissão na localidade.
A gravidade da situação é amplificada pelo registro de óbitos. Dos sete falecimentos associados à chikungunya em Mato Grosso do Sul, cinco ocorreram na Reserva Indígena de Dourados, incluindo duas crianças com menos de quatro meses de vida. Os outros dois óbitos foram reportados nos municípios de Bonito e Jardim, evidenciando que, embora a doença afete toda a população, o impacto nas comunidades indígenas de Dourados é desproporcionalmente alto e devastador.
A Resposta Federal e a Declaração de Emergência
Diante da escalada de casos, a Prefeitura de Dourados decretou situação de emergência em 27 de março, medida que foi reconhecida pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional em 30 de março. Este reconhecimento permitiu a mobilização de recursos e a implementação de ações emergenciais para conter o avanço da doença e aprimorar o atendimento aos pacientes.
Como parte da resposta federal, o governo anunciou uma série de medidas coordenadas para combater o mosquito *Aedes aegypti*, principal vetor da chikungunya. Esta iniciativa visa interromper o ciclo de transmissão e intensificar os esforços para proteger a população, especialmente a que reside na reserva indígena, que tem sido a mais vulnerável aos impactos da enfermidade.
Mobilização de Equipes e Destinação de Recursos
A resposta governamental envolveu a emissão de um alerta epidemiológico pelo Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde do Distrito Sanitário Especial Indígena do estado (DSEI-MS). Em seguida, agentes da Força Nacional do SUS foram deslocados para Dourados, unindo-se a uma força-tarefa composta por profissionais da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) e da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, ambas do Ministério da Saúde.
Adicionalmente, o governo federal destinou cerca de R$ 3,1 milhões em recursos públicos para o município. Desse total, R$ 1,3 milhão é voltado para socorro e assistência humanitária direta à população. Outros R$ 974,1 mil serão empregados em iniciativas de limpeza urbana, remoção de resíduos e destinação adequada em aterro sanitário. Os R$ 855,3 mil restantes financiarão ações de vigilância, assistência e controle da chikungunya na cidade. Eloy Terena assegurou que estes recursos já se encontram nas contas dos governos estaduais e municipais, prontos para serem utilizados na contratação emergencial de bens e serviços necessários.
Para reforçar o combate ao vetor e o atendimento à população, o Ministério da Saúde procederá à contratação temporária e capacitação de 50 agentes de combate a endemias, sendo que 20 deles iniciarão as atividades imediatamente. Estes profissionais, juntamente com 40 militares disponibilizados pelo Ministério da Defesa, integrarão as equipes em campo, conforme destacou Daniel Ramos, representante do Ministério da Saúde, prometendo “ações contundentes de controle vetorial para reduzir esta pressão nos serviços [de saúde]”.
Desafios na Reserva Indígena e Coleta de Lixo
As equipes de saúde, incluindo a Força Nacional do SUS, têm atuado diariamente nas aldeias Bororó e Jaguapiru, localizadas na Reserva Indígena de Dourados. Contudo, a representante da Força Nacional do SUS, Juliana Lima, ressalta a complexidade da situação, afirmando que o cenário é “muito dinâmico” e apresenta um “perfil epidemiológico diferenciado” dia após dia. Isso dificulta uma avaliação precisa sobre a melhora ou piora do número de casos em aldeias específicas, mas o monitoramento contínuo permite direcionar os atendimentos de casos agudos onde são mais necessários.
Um ponto crucial levantado pelo Ministro Eloy Terena foi a questão da coleta de lixo na Reserva Indígena de Dourados. Ele destacou a condição “sui generis” da reserva, que, ao ser englobada pela área urbana crescente do município, enfrenta desafios específicos de infraestrutura. Terena cobrou maior atenção da prefeitura para a coleta de resíduos, um fator crítico na proliferação do *Aedes aegypti* e, consequentemente, na transmissão da chikungunya, sublinhando a necessidade de soluções integradas que considerem as particularidades do território indígena.
Compromisso com o Enfrentamento da Crise
A situação em Dourados exige uma abordagem multifacetada e o engajamento contínuo de todas as esferas de governo. A classificação de cenário crítico pelo Ministro Eloy Terena, aliada à mobilização de recursos financeiros e humanos, demonstra o reconhecimento da seriedade da crise e o compromisso em mitigar seus efeitos, especialmente nas populações mais vulneráveis. O enfrentamento da chikungunya e a garantia da saúde pública na região dependem da eficácia das ações de combate ao vetor, da agilidade no atendimento aos doentes e da melhoria das condições sanitárias, com foco especial na proteção das comunidades indígenas.